Abre-te Sésamo! Como entrar no mundo do trabalho.

Todo mundo já ouviu o bordão que quem faz o curso superior ser bom ou ruim é o aluno. Não é verdade. Leia mais e saiba o porquê!

Um bom aluno em uma instituição aquém de suas capacidades e possibilidades poderá ficar limitado profissionalmente no futuro. Este estudante terá que fazer sozinho alguns percursos de estudo, pesquisa e estágios que a instituição deficiente não lhe propiciará. A escolha da instituição é uma definição séria e tem muitas variáveis para se analisar. O ideal é ser aprovado na melhor instituição possível, com o melhor currículo, os melhores professores, os melhores grupos de pesquisa, os colegas melhor preparados e as melhores opções de estágio. Entre este “paraíso universitário” e as possibilidades que se apresentam, vejamos o que deve ser considerado.

Qualificação docente

Boas instituições e bons cursos têm professores com formação qualificada, raramente com algum abaixo do nível de Mestrado.

A graduação universitária aborda as grandes áreas da profissão, com os conhecimentos básicos a elas inerentes e as habilidades que devem ser desenvolvidas, sem grande aprofundamento. É uma visão horizontalizada do curso, sem muitas conexões com outras áreas profissionais. Quanto mais qualificado for o docente, maior a possibilidade que vá além do que aborda a literatura da disciplina, conhecendo e indicando ligações com outros campos do conhecimento e de atuação.

Na qualificação convém levantar o percentual de professores que são efetivos pesquisadores, com publicações acadêmicas e quanto estas são citadas em outros trabalhos científicos. Lembre-se que, em um mundo em mutação, as profissões também mudam, novas habilidades são requeridas e o enfrentamento delas depende da contínua produção de conhecimentos novos. Professores que são pesquisadores, além de produzirem o conhecimento, moldam a área de estudo para o futuro.

Pesquisadores também têm contatos amplos no mundo acadêmico e, por vezes, empresarial, da profissão. Trazem informações enriquecedoras durante suas aulas, indo além dos livros-texto da matéria. Algumas vezes, são eles mesmos os autores de itens da literatura indicada. Além disso, serão fontes preciosas durante a vida profissional, pois o ex-aluno sempre terá maior possibilidade de acesso para consultar seu professor. Caso a opção seja a carreira acadêmica, um professor qualificado tem contatos importantes na área de continuação de estudos que vier a escolher.

Networking

Instituições renomadas atraem bons alunos. Além do skill set – conjunto de habilidades que o curso proporciona – também confere um networking, uma rede de relacionamentos na área escolhida. Lembre-se que na profissão precisamos estabelecer parcerias, fazer consultas com colegas da área, o que fica mais fácil se seus contemporâneos da faculdade estiverem em postos relevantes em empresas, órgãos públicos e no terceiro setor, o que costuma ocorrer com os formados nas melhores faculdades.

Cursos que oferecem poucas vagas podem ter bons índices nas demais variáveis mas gerarão uma rede reduzida para o profissional, que terá que construí-la sozinho. Nestes casos, o aluno deverá definir rapidamente um ou alguns segmentos do curso que mais lhe interessa e participar o tanto que seja possível de congressos, conferências, estágios, mesmo que de férias, construindo um rol de contatos para quando entrar na vida profissional.

Claro que estes contatos fora do curso de graduação são importantes para todo estudante que almeja um espaço relevante na profissão, mas para os formados em cursos pequenos, com poucos alunos, a construção desta “agenda de contatos” é ainda mais relevante.

Currículo do curso

Verifique nas instituições que selecionar, o currículo do curso escolhido, em busca daqueles que sejam mais adequados à formação que você deseja. Para o curso de Administração de Empresas, empreendedorismo pode ser o interesse do candidato, mas não ser o foco de diversas instituições selecionadas por ele. Um estudante que deseje fazer Direito para atuar na área empresarial deve escolher cursos com este direcionamento. Se o aluno quer fazer Medicina para atuar em saúde pública ou em organizações internacionais (Médicos Sem Fronteiras, p. ex.), deve privilegiar um curso que invista neste perfil.

Muitas vezes o candidato que acreditava ter certeza do curso escolhido, ao analisar os currículos em diversas instituições acaba descobrindo que seu interesse é por um outro curso, na mesma área do conhecimento, mas com objeto de estudo e trabalho um pouco diferente. Há sobreposição de atuação em cursos assemelhados, o que pode confundir o interessado por um deles. A análise do currículo pode elucidar estas confusões.

Ranqueamento de instituições e cursos

Há rankings que destacam as melhores instituições em cada curso ou área. O mercado não é insensível a isso, buscando profissionais graduados nos melhores cursos para as vagas mais importantes. No Brasil, o RUF – Ranking Universitário da Folha de São Paulo deve ser consultado. A última edição do RUF avaliou as 197 universidades então existentes no país, sob os aspectos do ensino, da pesquisa, da avaliação do mercado, da capacidade de inovação (patentes requeridas e parcerias com empresas) e internacionalização (citações em trabalhos estrangeiros e publicações em
coautoria internacional).

As avaliações do mercado devem ser olhadas com cautela. A feita pelo RUF leva em conta uma pesquisa do Datafolha com empregadores. Não é de se estranhar que as primeiras colocações, em nível nacional, também coincidam com instituições de estados mais populosos, com maior número de empresas pesquisadas. As empresas empregadoras conhecem um número limitado de instituições fora do estado do país onde atuam, o que coloca em desvantagem instituições pequenas, de estados fora dos eixos regionais e nacionais. A pesquisa Datafolha aborda a preferência das empresas para contratação, o que não significa que esta escolha seja homogênea para todos os cargos a contratar.

O RUF também listou todas as faculdades isoladas ou integradas, centros universitários, institutos, totalizando mais de 1.900 instituições. Destas não foi realizado o ranqueamento, mas os cursos destas instituições que estão dentre as 40 carreiras pesquisadas fazem parte do ranking.

O Ministério da Educação tem avaliações dos cursos superiores, das quais o Enade é a mais conhecida e que discorreremos a seguir. O órgão federal também tem indicadores do ensino superior, como o IDD – Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado, o CPC – Conceito Preliminar de Cursos e o IGC – Índice Geral de Cursos.

Os índices oficiais não são oferecidos de uma forma que sejam de fácil consulta. Colocaremos, anexo, breves descrições de cada um deles e os valores divulgados dos indicadores divulgados mais recentemente.

Caso você pense em continuar seus estudos no exterior, convém conhecer o ranqueamento das instituições brasileiras nas avaliações elaborados no país onde pretende estudar. Nos EUA, sugiro o US News Education e o QS World Universities, embora haja outros. Nestes rankings são encontradas as principais universidades de todo o mundo, analisadas globalmente, por continente e por curso.

Desempenho no Enade

Os graduados no ensino superior são avaliados por um exame promovido pelo Ministério da Educação, por meio do Inep. O Enade é uma prova que verifica o rendimento dos formandos em relação aos conteúdos do curso que está concluindo e as competências e habilidades que a profissão requer.

A cada 03 anos os cursos da mesma área são avaliados, a partir do desempenho dos alunos na prova e do questionário que respondem. A inscrição é obrigatória e consta no histórico escolar, mas o desempenho melhor ou pior não fica registrado.

Muitos alunos não se importam em fazer o exame, entregam as provas em branco, boicotando a avaliação, o que faz as instituições onde se graduaram terem notas baixas no Enade. Se não é possível desqualificar uma instituição pelo seu desempenho insatisfatório, bons desempenhos são sinais positivos. Há coordenações de curso que fazem verdadeiros cursos preparatórios para seus alunos concluintes, e, ainda que os alunos tenham sido treinados para a prova, se tiverem bom desempenho este resultado é favorável à escolha da instituição, pois somente é treinável quem estiver qualificado para tal.

Para o cálculo do IGC são considerados os conceitos no Enade dos últimos três anos, abrangendo todas as áreas avaliadas.

Estas são algumas variáveis relevantes para se levar em conta no momento da escolha da instituição onde irá estudar. Há outras, de caráter pedagógico ou não. Custo de vida na cidade escolhida, segurança na cidade e no campus, distância da cidade em relação àquela em que mora a família do aluno são também análises muito importantes. Nem sempre é possível ingressar na instituição mais desejada, mas é preciso ter maturidade para reconhecer os pontos em que a faculdade finalmente escolhida não contempla seus anseios e criar seu próprio itinerário nestes quesitos. Não há uma fórmula, mas um percurso que será criado e recriado continuamente.

Para terminar com olhos no futuro e a certeza que nele estará a realização profissional, estes versos de Ferreira Gullar (que eu, aliás, acho se aplicam a tudo, à vida).

“Caminhos não há
Mas os pés na grama
os inventarão.

Aqui se inicia
uma viagem clara
para a encantação.”

Poemas Portugueses (4)



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